Domingo, Setembro 11, 2005
Hume

Hume queria retornar à forma original pela qual o homem conhece o mundo. Ele queria retornar ao modo como a criança experimenta o mundo.

Para ele, o homem possui impressões, de um lado, e idéias, de outro.

Por impressão ele entende as sensações, as paixões, as emoções quando aparecem pela primeira vez em nossa mente, vindas do mundo exterior. Por idéia ele entende a lembrança de tal impressão.

Se você sente alguma dor, por exemplo, quando queima a mão no fogo, o que você experimenta é uma impressão imediata. Depois de um tempo você se lembra de que se queimou e esta lembrança ele a chama de idéia, noção.

A impressão é mais forte e mais viva do que a lembrança que se tem dela mais tarde. Podemos chamar a impressão de original e a idéia ou a lembrança que se tem dela, de uma cópia pálida e enfraquecida do original.

Para ele, quanto mais próximas das sensações nossas idéias tiverem, mais nítidas e fortes elas serão. E quanto mais abstratas elas forem, mais pálidas e sem força.

Conhecer é perceber, sentir e relacionar estas sensações em idéias. Se as idéias que temos não nasceram de nenhuma experiência, então são fracas e sem importância.

Por isso, devemos evitar generalizações como ¿tudo¿, ¿nunca¿, ¿sempre¿. Estas afirmações não poderiam corresponder à realidade que é sempre particular, individual.

É o caso da noção de eu, ou de um núcleo de personalidade, que foi exatamente a noção que serviu de base para a filosofia de Descartes. Nossa noção de eu compõem-se na verdade de uma longa cadeia de impressões isoladas, um feixe de sensações, que nunca conseguimos vivenciar simultaneamente.

O que chamamos de eu é sempre uma experiência particular, nunca conseguimos nos relacionar com sua totalidade, com sua unidade, porque ela não existe. Nosso eu é produto de nossa imaginação que junta impressões isoladas como se fosse uma unidade. Nosso eu é uma generalização.

Às vezes formamos noções para as quais não há correspondeste na realidade material, é desta forma que surgem noções falsas sobre coisas que não existem na natureza. Por exemplo, o anjo: juntamos a impressão de um par de asas que percebemos nos pássaros, com o que conhecemos de um ser humano. Foi nossa mente que construiu essas coisas, através da imaginação. E a maioria de nossas idéias abstratas são como anjos.

Hume só aceitava como verdade aquilo que podia experimentar pelos sentidos. Ele diria que você já experimentou muitas vezes que uma pedra cai do chão quando a soltamos, só que você não experimentou o fato de que ela irá sempre cair. Em geral dizemos que a pedra cai por força da gravidade. Só que nós nunca experimentamos esta lei, tudo que experimentamos é que as coisas caem. Você acredita que sempre vai cair porque já viu isso muitas vezes, é o hábito que faz com que você pense que isso seja uma lei imutável da natureza.

Toda lei da natureza é uma generalização. O fato de durante toda a vida alguém só ter visto corvos pretos, não significa que não haja corvos brancos. Isto para ele é produto do hábito, e não algo racional. Vimos leis fixas na natureza porque ela, para nós, se tornou um hábito.

O mesmo fazemos com nossa vida: (exemplo os alunos da turma que se sentem excluídos e se excluem por serem repetentes)

Muitos consideram o raio a causa do trovão, pois o trovão sempre se segue ao raio, mas será que o raio é mesmo a causa do trovão? Não exatamente. O raio e o trovão acontecem ao mesmo tempo, mas um não causa o outro, ambos são conseqüência de uma descarga elétrica. Toda noite vem depois do dia, mas isso não quer dizer que o dia causou a noite, os dois foram causados pela rotação da Terra.

Para Hume, nossas metas na vida não são determinadas por nossos intelectos, mas por nossas sensações. Nossos comportamentos são determinados por nossos desejos e paixões. Para ele, a razão é escrava das paixões.

Um perigo que a filosofia de Hume aponta é o das conclusões precipitadas. Devemos assumir que não conhecemos realmente nada. Não sabemos nada. Todo conhecimento provém dos sentidos, das sensações e não passam de impressões. Por isso não podemos ter certeza de absolutamente nada.

Se jamais teremos um conhecimento certo e definitivo, toda certeza que podemos ter é a probabilidade. Hume foi um dos filósofos que mais influenciou a concepção de uma ciência estatística, ou probabilística, tão comum hoje em dia.

Domingo, Setembro 04, 2005
Espinosa e a alegria

Para Espinosa, Deus não criou o mundo, ele é o mundo. Em outras palavras, tudo o que existe no mundo é Deus, que também pode ser pensado como a natureza, ou a substância infinita.

Ao contrário da tradição filosófica, Espinosa não divide o mundo em dois. Para ele, tudo é um. Tanto os corpos como as almas, ou o pensamento, derivam de uma mesma substância, que se manifesta nos corpo de uma maneira, e nos espíritos, de outra. Mas nenhum é superior ao outro. Os dois manifestam a mesma coisa: a natureza, que ele chama de Deus.

Da mesma forma, para ele, não existe bem e mal, mas bom e mau encontro. Para qualquer forma existente no mundo, há dois tipos básicos de encontro: um bom e um mau encontro de corpo, ou de alma.

É da natureza do corpo, incluindo o corpo humano, afetar e ser afetado por outros corpos. Se o corpo que nos afeta se compõe com o nosso, a sua capacidade de agir se adiciona à nossa, e provoca um aumento de nossa potência. Isto é alegria.

Um mau encontro é aquele em que um corpo que se relaciona com o nosso não combina com ele e tende a decompor, ou destruir, a relação do nosso corpo consigo mesmo, e com os outros, o que nos leva à diminuição, e conseqüentemente, à tristeza. O mesmo acontece com a alma.

O afeto é, então, a potência de agir de um corpo. Quando a potência de agir aumenta, sinto alegria, e quando diminui, sinto tristeza. Para ele, a única afeição é a alegria. Todos os outros afetos são derivações dela. A tristeza é somente ausência de alegria. O amor é a alegria acompanhada de uma causa exterior. Assim como o ódio é a ausência de alegria acompanhada de uma causa exterior.

Por isso, enquanto nossos afetos estiverem à mercê dos encontros, ou de causas exteriores a nós, seremos marcados pela impotência, porque isso nos impede de agir. O que Espinosa chama de afetos ativos ou ações, supõe que estejamos de posse de nossa capacidade de agir. É aí que entra a alma ou o espírito.

Se tanto a alma quanto o corpo manifestam a natureza, que é Deus, então uma idéia adequada é capaz de ordenar uma paixão inadequada. Uma paixão deixa de ser uma paixão e se torna uma ação tão logo tenhamos dela uma idéia clara e distinta. Portanto a idéia não deve afastar as paixões, ao contrário, deve permitir que se manifestem como ação. O pensamento serve para permitir a alegria.

A alegria, segundo Espinosa, não precisa de uma causa exterior, muito menos de uma causa. O motivo da alegria, quando existe, é apenas um impulsionador, que nos leva a uma experiência muito maior: a potência de viver. Toda alegria é alegria de viver.

Dicas de livros:
História do Pensamento Ocidental, de Bertrand Husssell. Paginas 283 a 288

Para iniciados:
Baruch Espinosa.

Domingo, Agosto 14, 2005
Platão e a divisão dos mundos

O filósofo grego Parmênides acreditava que o mundo que conhecemos não é o verdadeiro mundo. A realidade não está no que podemos sentir, ver, tocar, cheirar. Mas a verdade existe, ela é o que não muda, o que é fixo e eterno.

Mas como encontrar essa verdade?

Quem busca a verdade, ele diz, tem que escolher entre dois caminhos:

Se seguimos o caminho dos sentidos, somos levados à aparência e à ilusão. A única forma de atingir a verdade é examinando todas as coisas com a força do pensamento. Somente o pensamento pode atingir o que é eterno.

Platão, partindo dos dois caminhos apresentados por Parmênides, vai afirmar que existem dois mundos: um é o mundo que conhecemos através dos sentidos, onde vivem os corpos que nascem e morrem.

Outro é o mundo que somente pode ser conhecido seguindo a via do pensamento, da alma, o mundo das idéias, onde o que existe são modelos da verdade.

Todas as coisas que percebemos no mundo em que vivemos, nada mais são do que cópias mal feitas das idéias, que são perfeitas e eternas.

O homem por ser feito de corpo e alma participa destes dois mundos. Mas o corpo, ele pensa, é um grande obstáculo para a alma. A alma somente atinge a verdade se consegue submeter o corpo, dominá-lo.

Os gregos, antes de Platão, acreditavam que a alma precisava do corpo tanto quanto o corpo precisava da alma. Um não viveria sem o outro. Com Sócrates e Platão, no entanto, o corpo torna-se um túmulo que aprisiona a alma e a impede de pensar e atingir a verdade.

Mesmo ainda hoje em nossa vida cotidiana, é comum a gente acreditar que as sensações são traiçoeiras e que só devemos confiar na razão.

Um exemplo para isso é dado por Platão em sua alegoria da caverna. Ele imagina uma caverna onde alguns homens estão acorrentados desde a infância. Estão olhando para a parede de fundo, de costas para a entrada onde tem uma fogueira. Neste fundo são projetadas sombras de coisas e pessoas que estão do lado de fora. Se um destes homens conseguir se soltar, no início seus olhos estranharão a luz, mas depois de um tempo perceberá que o que via na caverna eram apenas sombras.

As sombras são todas as coisas que conhecemos através do nosso corpo. E as verdades que aparecem quando o homem sai da caverna são as verdades que podem ser atingidas pelo pensamento, pela razão. O que esta alegoria ainda hoje pode nos mostrar é que o que acreditamos como real pode ser uma ilusão, e deve ser posto em dúvida.

A filosofia, que nasce oficialmente no final do século V. AC pelas mãos de Sócrates e Platão, se constituirá em torno desta idéia: não a opinião nem as sensações devem ser seguidas, mas o pensamento e a razão, porque somente eles podem nos conduzir ao bem e à verdade. O que nasce junto com a filosofia, e que passará por algumas transformações durante os próximos séculos, é um método de pensamento que se chama razão, um método onde as paixões, as sensações, o corpo devem ser submetidos ao domínio do pensamento.

Indicações de leitura

Para iniciantes:
Convite à filosofia. Marilena Chauí. (sobre Platão, especialmente os capítulos sobre filosofia, metafísica, lógica)

Para iniciados:
Platão e as artimanhas do fingimento. Maria Cristina Franco Ferraz.

Domingo, Agosto 07, 2005
Heráclito de Éfeso

O homem, desde que temos notícia, se perguntou sobre a vida, sobre o mundo que o cercava. E isto é produto do que chamamos pensamento: ao mesmo tempo que estamos vivendo uma situação, somos capaz de nos ver de fora, e nos perguntar porque estamos ali. Assim, o homem foi construindo interpretações sobre o mundo, a partir da forma como via, como percebia as coisas que o cercavam. Assim sugiram as lendas, os mitos, como relatos, próximos da arte e da fantasia, que não buscavam explicar, mas ordenar, dar forma, configurar. Por temer a natureza, por ter clareza de seu poder e valor, viam nela entidades sobrenaturais que comandavam os ventos, os mares, o fogo. Mas houve um momento na história do homem em que ele precisou explicar o mundo indo além dos mitos e lendas, indo além do sobrenatural. O homem olhava o mundo, e buscava, nele, uma origem de tudo, uma razão, um princípio. Assim nasceu, na Grécia, a filosofia, como realismo, ou seja, como busca de explicação da realidade. E se perguntavam: o que é realidade e sonho? O que permanece? Temos o dia e a noite, o escuro e o claro, a dor e o prazer, mas onde começa um termina o outro? As coisas são opostas ou complementares? Uma criança quando fica adulta é a mesma pessoa, ou cada dia é uma nova? O que continua igual e o que muda?

Diversos pensamentos marcaram este período conhecido como filosofia pré-socrática, mas, aos poucos, algumas posições foram se distinguindo. Logo depois de Tales de Mileto que buscava a origem de tudo na unidade, ¿tudo é um, e este um presente em todas coisas é a água¿, os gregos, na figura de Anaximandro de Mileto elaboraram a idéia de um fluxo contínuo presente em tudo que vive, e chamaram devir, que significava o vir-a-ser constante, a transformação. ¿De onde todas as coisas tiram sua origem, aí também devem perecer segundo a necessidade¿. O mesmo jogo que cria é o que faz morrer, não somente a vida humana, mas a água, o calor, o frio; tudo que alguma vez teve uma propriedade definida experimenta a desintegração destas mesmas propriedades. Isto é o devir constante, o vir a ser. Mas, ¿de onde provém esta torrente sempre renovada do devir?¿, ele se pergunta. E diz: de um ser eterno. Para Anaximandro este devir somente poderia ser explicado como expiação, como uma culpa, atribuída por um ser eterno, por um deus.

É pensando este mesmo devir que Heráclito de Éfeso formula seu pensamento, mas o percebe em um sentido contrário. ¿Quando contemplei o devir, ele diz, encontrei regularidades estáveis, certezas. Onde domina a injustiça depara-se com o arbitrário, a desordem, mas onde só reinam a lei, como neste mundo, como poderia aí vigorar a esfera da expiação e da culpa?¿. O mundo é um vir a ser constante, um jogo onde ¿todas as coisa têm em si mesmas o seu contrário¿, a ladeira que desce é a mesma que sobe. A essência da realidade é a atividade, a ação, a transformação constante, a mudança, mas esta luta manifesta a justiça eterna.

O devir nasce do eterno conflito dos contrários, da luta: o dia se torna noite, o quente frio e o frio calor. É uma só e mesma coisa a vida e a morte, o despertar e o dormir, a mocidade e a velhice. A contradição é fecunda, repleta de vida e força geradora. As propriedades das coisas manifestam não a essência, mas a superioridade momentânea de algumas características sobre outras. As qualidades fixas que percebemos são enganos dos nossos sentidos. ¿Usais os nomes das coisas como tendo uma duração fixa, mas até o próprio rio, no qual entrais pela segunda vez, já não é o mesmo que era da primeira vez¿.

Para ele, não existe nenhuma injustiça a seu redor. O devir é inocente e somente o jogo do artista e da criança pode manifestar esta inocência: uma criança junta montinhos de areia à beira-mar, constrói castelos sabendo, e mesmo esperando, que o mar os derrube. Heráclito não se esforça para afastar as contradições do mundo, ao contrário, as justifica. A mudança tem sua constância e se produz em equilíbrio dinâmico. Os opostos em luta não cometem injustiça, como pensava Anaximandro. Existe uma harmonia suprema dada pelo equilíbrio dinâmico do cosmos. A mudança possui um logos. O movimento tem uma unidade reguladora, e esta é a mais alta justiça.


Já Parmênides de Eléia acredita que duas vias se oferecem a quem busca conhecer a verdade, mas somente uma é fecunda e justa, a que afirma a eternidade e imutabilidade do ser. Para ele, existe uma realidade absoluta e ela é o ser. O ser é uno, único, contínuo, eterno. Tudo o mais é ilusão. O que é, ele diz, deve existir em uma eterna presença. Depois de cantar a realidade do ser Parmênides vai cantar a realidade perigosa da ilusão: o mundo tal como conhecemos não é o verdadeiro mundo, mesmo que não possamos conhecer outro. ¿Não acrediteis nesses olhos estúpidos, nos ouvidos barulhentos, e na língua, mas examinai tudo com a força do pensamento¿. Para Parmênides o movimento existe para os sentidos que se enganam, somente o pensamento pode perceber a verdade, o ser. A verdadeira realidade não está na experiência, mas no plano do pensamento. O pensamento é o único caminho para a verdade. Desta forma permite dividir o mundo em duas esferas separadas, a das qualidades positivas, de caráter claro, ardente, quente, leve, sutil e cheio de atividade, e das propriedades negativas que exprimem as carências, a ausência das outras, as positivas, descritas como obscura, terrestre, fria, pesada, densa, e passiva. O positivo é o ser e o negativo o não ser.

Foi Parmênides e sua idéia de ser que fundamentou a filosofia. A filosofia se constituiu como o caminho da verdade,


Indicações de Leitura:

Para iniciantes:
Bertrand Russell, História do Pensamento Ocidental.
Danilo Marcondes, Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein.

Para uma pesquisa um pouco mais profunda:
Coleção Os pensadores, Abril Cultural, 1974, volume Os pré-socráticos.
A filosofia na época trágica dos gregos, F. Nietzsche, Lisboa.

Sexta-feira, Agosto 05, 2005
Aguardem!

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